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domingo, 22 de agosto de 2010

Touradas no Brasil - Você sabia?

Touradas no Rio de Janeiro

Arena no Fundo da foto - Bairro do Flamengo - RJ

Foi uma semana vitoriosa para os defensores dos animais. Na quarta-feira, o Parlamento da Catalunha, na Espanha, aprovou um decreto que proíbe as touradas naquela região a partir de 2012. O que pouca gente sabe é que o Brasil e o Rio de Janeiro já foram palco de muitas touradas. Por quase dois séculos, elas foram populares por aqui. Em 1907, um decreto do prefeito Francisco Marcelino de Souza pôs fim às touradas cariocas, uma tradição que acompanhava a cidade pelo menos desde o século XVIII. Eram eventos narrados em poemas, que contavam com desfiles de irmandades e carros alegóricos, e exigiam a montagem de arenas para comportar milhares de espectadores.

As touradas aportaram na Colônia como uma prova de fidelidade ao reino português. Os grandes acontecimentos da monarquia deveriam ser comemorados em todos os seus domínios com uma festa de três dias, cuja programação incluía encontros acadêmicos, peças e jogos. A principal atração, no entanto, eram os homens de chapéu de três pontas e roupas de seda, que, por uma hora, desafiavam touros vindos da Europa, numa arena montada no Campo de Santana, financiada pela Câmara de Vereadores.

As partes anteriores do espetáculo tinha um quê de protocolar — as danças de ciganas, as exibições preparadas por categorias profissionais. Mas a popularidade das touradas era incontestável. Na semana anterior ao evento, a imprensa carioca alardeava a presença de toureiros portugueses famosos, como Luiz Antônio Gonzaga e Joaquim Ferreira de Vasconcelos. A dupla comandou os festejos de 1762, em homenagem ao nascimento de dom José, príncipe de Portugal. Para a curta performance, cada um recebeu o equivalente a quatro meses do salário de um professor.
Os nobres, embora menos afeitos ao esporte, também prestigiavam o evento: era sua forma de mostrar alegria com as datas oficiais da Corte. E um intelectual encarregava-se de escrever um livreto sobre os festejos, depois enviado a Lisboa. O autor da obra de 1762, de identidade desconhecida, inovou ao criticar as touradas. “Esse bárbaro resto dos anfiteatros romanos, que as nações de Espanha religiosamente conservam para desempenho nas suas maiores festas. (...) Tudo era soberbo; doce e melodia de cantilenas e o acordado efeito de tantos instrumentos formavam o alegre prelúdio de uma cena trágica”.

Arenas se espalharam após independência

Foi um raro sinal de descontentamento. As touradas sobreviveram depois da proclamação da independência do país, quando a Coroa portuguesa deixou de ser motivo para festas. Também resistiram à perda de seu estádio, no Campo de Santana. Por volta de 1870, a área foi ajardinada, assumindo suas feições atuais, e deixou de receber grandes eventos públicos.
— A partir da metade do século XIX, os empresários começaram a montar suas próprias casas de espetáculos — conta o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti. — As arenas, também chamadas de curros, foram montadas onde hoje são as ruas Marquês de Abrantes, no Flamengo, e do Lavradio, na Lapa. Eram estruturas provisórias de madeira, que podiam ser desmontadas, e recebiam touradas aos sábados, domingos e num terceiro dia durante a semana. Para atrair espectadores, seus proprietários anunciavam nos jornais a importação de touros europeus.
O público engrossou no fim do século XIX, quando uma grande leva de imigrantes espanhóis chegou ao Brasil. Sua chegada coincidiu com o o auge das touradas cariocas. A cidade enfim ganhou seu primeiro e único curro definitivo, construído com tijolos próximo à atual esquina das ruas Ipiranga e das Laranjeiras. Próxima à estrutura, projetada em 1898, ficava a fábrica de tecidos Aliança. Lá trabalhavam cerca de mil operários — membros de uma classe social que costumava frequentar as touradas.
O mais novo ponto de encontro da cidade, no entanto, teve vida curta.
— O século XX chegou com novos atrativos, como o surgimento do cinema e a proliferação do teatro — ressalta Cavalcanti. — Além disso, as touradas do Rio seguiam o modelo português, em que o touro era mantido vivo após o espetáculo, e não o espanhol, onde ele é morto. Isso pode ter contribuído para a plateia perder o interesse.
As touradas também enfrentavam outros obstáculos. O orçamento necessário para aquele programa era alto demais. A importação do touro custava uma fortuna, e as despesas do evento incluíam, também, o pagamento de bandas, dois toureiros e seus assistentes, os capinhas.
Outro desafio aos adeptos dos jogos: os touros, enfim, ganharam defensores. A Sociedade Protetora dos Animais lutou pelo fim daqueles espetáculos. E a militância colheu frutos em 1907, quando a prefeitura baixou decreto proibindo o esporte.
O poder municipal, na verdade, já não escondia a insatisfação com as arenas. A Praça dos Touros de Laranjeiras esbarrava no projeto de modernização da cidade, conduzido por Pereira Passos. Quando canalizou o Rio Carioca, que corta o bairro, o prefeito sonhava em entregar a região a habitações coletivas.
— Laranjeiras é próximo ao centro da cidade e já contava com bondes — assinala Cavalcanti. — Era natural que a urbanização por que passava o Rio se estendesse àquela área. O prefeito defendia o remanejamento de atividades industriais e comerciais, como o curro e a fábrica de tecidos, para São Cristóvão, longe do núcleo de suas reformas.
Pereira Passos não mexeu na arena, mas a Praça de Touros, como já era previsível, sucumbiu à especulação imobiliária. Nos anos 30, deu lugar a um grande prédio. Os touros, que tantas festas animaram, não deixaram saudade, como escreveu o historiador Ferreira da Rosa: “O divertimento foi perdendo aficionados; os toureiros desistiram: o redondel desmanchou-se. A cidade não deu pela falta”.
Extraído de O Globo, 16 de agosto de 2010

Um comentário:

  1. Que reportagem fantástica! Sou historiadora. Nunca havia ouvido falar sobre isso.
    Compartilhei no Facebook.

    Obrigada.

    Beijos

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